Visita inesperada

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Colaboração: Maria Eugenia Kireeff, administradora e prosadora.

Ontem, tive companhia. Inesperada, a surpresa fez meu coração disparar. Pura adrenalina, tirou o sossego do meu sábado à noite. Me emprestou novamente uma vitalidade que não sabia que tinha.

Deitada em meu sofá, assistindo a um filminho, sinto, sexto sentido mesmo, que algo havia passado, alguém teria entrado sorrateiramente em minha casa.

Como não esperava nada nem ninguém, porque a chuva caía torrencialmente lá fora, achei que não se tratava de algo real, somente um pressentimento bobo.

Passados alguns minutos, fui tomada de uma curiosidade mórbida. Me levantei e segui na direção da porta.

No corredor, tivemos o impacto de nosso primeiro encontro. Eu estava lá, alta, cabelos soltos, pés no chão, de camisola e desprotegida. Ele me observava parado, assustado por ter sido descoberto. O encontro congelou seus movimentos e alguns segundos se passaram, enquanto nos analisávamos um ao outro, uma estranha situação.

Como a saída estava atrás de mim, não demorou muito para que o invasor corresse em minha direção. Numa mistura de susto, raiva e medo, corri, saltando para cima do primeiro móvel que me colocava a mais de um metro do chão!

Então, aquele rato doméstico, invasor, desagradável, passou como um relâmpago ao meu lado escondendo-se sob o sofá!

Um ratinho veio visitar inesperadamente (Foto: Divulgação)

Ainda dominada pela surpresa que aquele momento trazia, muda, desci pé ante pé da minha mesa, e, correndo, numa mistura de passos largos e grandes saltos, cheguei até nossa despensa em busca da vassoura mais dura, uma ofensiva arma para a batalha que estava prestes a começar.

Imbuída de coragem, saltando da mesa para o sofá, com minha arma em punho, tracei uma estratégia que, com pancadas, pulos e muita linguagem persuasiva, fariam o visitante andar, correr da esquerda para a direita em direção à saída dos fundos.
Plano traçado, sem medir as consequências físicas resultantes no meu sofá, comecei, como uma diva louca, a gritar e bater com a vassoura nas almofadas para ensurdecer o famigerado animal.

Divinamente, após muitas e muitas surradas nas minhas lindas almofadas de couro, seguiu em disparada o bicho. Instintivamente também segui atrás dele com a vassoura em riste, batendo, surrando, espancando o caminho num movimento frenético, de pessoa possuída, numa tentativa absurda de castigar todo e qualquer território que aquela peste havia percorrido, provocando, assim, nosso segundo encontro.

Frente a frente, paramos novamente alguns segundos em silêncio. Eu na entrada da cozinha, ele encurralado em um buraco debaixo do fogão. Precipitadamente fechei a porta atrás de mim. Naquele instante, encarando a fera e tentada pela minha posição vantajosa, dei mais uma pancada com a vassoura no chão.

Mesmo antes do estampido provocado parar de se propagar no ar, lá veio ele correndo, saltando por cima da vassoura bem na minha direção, que como um ninja inclinei meu corpo desviando do astuto agressor, e o vi passando por debaixo do vão da porta como uma pizza de rato de borracha, seguindo mais uma vez para o sofá!!!!!!

Exatamente assim que descobri o meu talento para filmes de terror. Já totalmente fora de mim, a cada pancada e a cada pensamento sobre qual a seguinte estratégia a adotar para combater a peste, soltava um grito estridente e ensurdecedor.

Mais uma vez em cima da mesa, com meu filme em seu apogeu, seguramente protegida com a minha vassoura, um tanto descabelada, com as mãos trêmulas, coração disparado, um pouco pela adrenalina e outro tanto pelo corre corre, resolvo acender um cigarro e acompanhar as cenas.

Como que pressentindo o que acontecia, o rato saiu em direção à mesa, com meu berro, virou correndo para a direita. Deu de cara com meu cão, no mesmo segundo deu meia volta e acredite, me enfrentou de igual para igual, por todas as direções, momento no qual não sabia mais se perseguia ou era perseguida.

Gritos, saltos, corridas, móveis derrubados, cadeiras arrastadas, com minhas pernas bambeando, sentei na mesa, já torcendo para ele voltar para debaixo do sofá.

Num ato de coragem, virei de costas e assisti ao final do filme. Prestei atenção nas minhas mãos, na minha pele arrepiada a cada lembrança da criatura, na minha sala desarrumada, na barra da saia do sofá imóvel, no meu cachorro assustado, deitado num canto.

Me senti vencida, neste momento, lamentando a palpitação excessiva do meu coração.

Mais uma estratégia me veio à cabeça. Abri todas as portas, pulei para cima do sofá e surrei-o como quem surra um desgraçado que já te machucou muito algum dia. Com nome e feições!

Nada aconteceu. Assim, subitamente percebi que também havia apavorado o bicho, que eu era forte, alta, poderosa e que realmente aquele ratinho não sairia debaixo da saia do sofá para mais um embate comigo por nada neste mundo.

Me sentei, desta vez de frente para o sofá, ainda em cima da mesa, acendi um cigarro, fumei calmamente, soltei toda a fumaça para baixo da saia do móvel. Me senti idiota – “como pude fazer isso comigo mesma? Fumei algo que uso como arma para intoxicar um pobre ratinho?”, foram as perguntas que surgiram na minha mente quando dava meu último trago.
Mas exausta, deixei qualquer questionamento de lado, chamei meu cachorro, larguei o rato para trás, as portas abertas, as luzes acesas, me tranquei no meu quarto e fui dormir.

Foi uma noite em que acordei a cada barulhinho.

Na manhã seguinte, tomei as medidas necessárias para proteger a minha casa, a minha família. Armei iscas, armadilhas, e adotei a prática de um longo período de pernas para o ar.

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