Tensão no gelo dum vilarejo regido pelo absurdo: é ‘Trapped’, nova série da Netflix

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Colaboração: Ranulfo Pedreiro, jornalista cultural em Londrina, do blog Máquina do Som.

Um longo voo de drone mostra o litoral congelante da Islândia. Aos poucos, porém, imagens se fundem e o que era relevo torna-se pele ressecada, veias azuladas, curvas da anatomia humana. O paralelo, traçado pela abertura de Trapped, nova série da Netflix, traduz o caráter soturno do seriado. Debaixo das geleiras, o sangue ferve. E muito. A paisagem branca e tranquila do lugar esconde um turbilhão de sentimentos controversos.

Até aí, tudo parece um clichê. Dos drones à loucura vestida de normalidade. A diferença de Trapped está na origem. A Islândia é uma grande ilha isolada ao norte da Inglaterra, mais perto da Groenlândia do que da Europa.

Trapped esconde no gelo as tensões de um vilarejo absurdo (Foto: Divulgação)

É um país culto e civilizado, com uma língua deliciosamente sonora, capaz de originar nomes impronunciáveis – e por isso eles são evitados aqui, bem como os spoilers. Trapped ultrapassa a barreira dos clichês graças à personalidade islandesa.

Na pequena cidade litorânea onde se passa a série, a população é emocionalmente interligada pelo convívio. As emoções, porém, não transparecem no tom de voz ameno. Mesmo nas situações mais desesperadoras, é raro ouvir algum grito. Tudo é sussurrado, falado pelos cantos, aos cochichos, ao pé do ouvido. Essa calma, no entanto, é um elemento de tensão prestes a se romper.

Motivos não faltam. O vilarejo está na rota do tráfico humano, enfrenta uma tempestade sem fim, o passado assombra o presente, as pessoas perdem a razão e o chefe de polícia atravessa uma interminável crise pessoal – cuja intensidade transparece no excesso de peso e nas mínimas horas de sono. A monotonia é um disfarce do absurdo.

O clima branco-acinzentado, por vezes, equipara-se a um pesadelo onde as coisas são apenas delineadas – casas, pensamentos, amores, barcos, tudo parece impressionista, inclusive as cores empasteladas que permeiam os interiores.

Trailer de Trapped, com legendas em inglês.

Embora o roteiro, às vezes, amarre forçadamente os nós, o enredo mantém o anestesiado ritmo dos habitantes em meio ao gelo, evitando picos de ação. Os fatos desenrolam-se crus como a neve a interditar as estradas e, por isso, carregam o impacto de uma avalanche.

Em tempos de edições frenéticas regadas a muita adrenalina e rostos bonitos, talvez Trapped não alcance o sucesso de rivais americanas e inglesas, embora venha conquistando a crítica. Sua história puxa o fio cinzento de um novelo emaranhado. Não chega a se aproximar de um Ingmar Bergman. Mas segue humana, demasiadamente humana.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei muito da primeira temporada. Interessante curtir uma estoria num cenario tao diferente, com nomes e prrsonagens pitorescos, a comecar pelo pais que se chama literalmente Terra de Gelo. Que venha logo a segunda temporsda, de preferencia filmada no verao que deve ser lindo por lá.

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