Picadinhas Orientais

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Colaboração: Maria Eugenia Kireeff, administradora e prosadora.

Naquela manhã, enquanto terminava meus trabalhos da pós-graduação, cortaram a linha telefônica. A internet caiu.

Entrei em contato com a companhia e descobri que meu débito em conta não havia sido efetuado.

Depois de almoçar correndo, peguei o carro e quis adiantar as coisas, dar aquela passadinha rápida na faculdade e entregar os trabalhos pessoalmente ao meu professor.

O telefone celular tocou, parei na esquina, quase chegando ao meu destino. Era o zelador que ligava para avisar que também o fornecimento de luz da minha casa iria ser cortado, por falta de pagamentos de abril e maio. Necessitava mostrar as faturas quitadas ou voltariam para realizar o corte.

Pedi ao zelador que avisasse ao rapaz que as contas estavam com meu marido e já haviam sido pagas, mas, que poderia mostrá-las assim que fosse pegá-las em Mauá.

Com o rapaz da companhia prometendo que voltaria até o final do dia para realizar o corte, mais do que depressa liguei para meu marido que estava para entrar em reunião.

“Olha, você vai ter que se virar”, falou ele rispidamente ao telefone. “Não estou nem perto da empresa. Se cortar, cortou!”

Engato a primeira, conto até um milhão e sigo para casa para procurar uma salvação.

Com a cabeça cheia, quase nem reparo que, ao passar para a segunda marcha, o câmbio do carro sai na minha mão! Quando toca o celular, não sabia se segurava o câmbio ou atendia a ligação do meu marido, arrependido de sua rispidez, quem havia me dado aquele carro há dez dias, e que me ligava para pedir desculpas, mas quem não iria me ajudar!

Já um pouco alterada explico que a coisa complicou, pois, o carro, havia quebrado!

“O quê?”, perguntou com um tom de desconforto e desconfiança em sua voz.

“É!”, enfatizei ao tom do dia que se anunciava!

“Tem assistência 24 horas!”, retrucou meu marido desligando o celular antes que a coisa ficasse preta para o seu lado.

Estacionei, por sorte, o carro em uma vaga enorme, onde não haviam veículos parados. Abaixei-me para pegar o manual no porta luvas e, surpresa! Dois carros haviam estacionado, um à minha frente e outro na minha traseira. “Serviço completo!”, pensei.

“Assistência 24 horas, estamos com todos os nossos atendentes ocupados, favor aguardar”, ouvi ao celular logo após discar para a tal assistência 24 horas.

Passados alguns minutos, uma senhora muito seca do outro lado da linha perguntou o número da carteirinha que eu não tinha. O carro havia chegado antes que os correios pudessem entregar a desejada. Pediu também o número dos chassis e depois o nome do proprietário. O que cutucou mais uma ferida, pois o carro recém-adquirido e quebrado estava em nome do meu marido, muito embora tivesse sido comprado com todo o dinheirinho da venda do meu antigo carro. Sem demonstrar qualquer emoção em sua voz, a atendente finalmente anunciou que dentre de mais ou menos quinze minutos alguém da área técnica iria entrar em contato comigo ao celular, para avaliar a situação.

Antes que aquele robô de carne e osso pudesse desligar, expliquei que já sabia o problema técnico e que somente um guincho poderia nos tirar de lá. Isso nada adiantou e, após mais quinze minutos, meu celular tocava novamente para um técnico me falar que eu necessitaria de um guincho, pois sem marcha não poderia tirar o carro do local!

Próximo passo, esperar mais 40 minutos pela chegada do guincho.

Na minha cabeça só vinha seu Atanásio falando que o cara da luz iria voltar! Apavorei!

Tocou o celular, era seu Atanásio, que ligava novamente para contar da luta de braço que teve quando evitou, pela segunda vez, o desligamento da luz e disse que o homem saiu injuriado. O cara berrava que voltaria, para aguardarem, enfrentando aos gritos meu zelador 2002, melhor que 10, melhor que mil! “Agradecida”, elogiei-o ao telefone.

Pego um táxi, saio alucinada para minha casa.

Reviro as minhas contas. Era óbvio que não estava na super pasta de contas, nem mesmo na super planilha de custos! Melhor pagar pela segunda vez! Lembro-me do corte da linha do telefone ao tentar acessar a internet! Clamo a Deus! Mas, só me vem à cabeça a memória do guincho!

Pego o mesmo táxi para ir ao encontro do guincho, no local onde havia abandonado o carro!
“Pode deixar madame, sei um caminho muito rápido! Não se preocupe é só virar aqui óh”, explicava sabiamente o taxista ao entrar em plena 23 de maio, totalmente parada.

Neste exato momento, eu já me encontrava grudada de ponta-cabeça no teto do táxi, quando meu celular tocou: “Madame, o guincho não acha a rua. Que nome é mesmo?”, perguntava ao telefone o técnico de plantão.

Eu que não conseguia lembrar, esclareço que não estou mais lá no local e que a pessoa que ficou está sem celular. Mentirinha à toa para preservar a minha imagem e poder cobrar do senhor ao telefone que ele se lembrasse afinal era a mesma voz, que me perguntara a minutos atrás o endereço do sinistro, logo lá pertinho da Santa Casa de Misericórdia. O técnico rapidamente desligou.

Nisso, ligo para uma amiga e peço para ela acessar a internet e resolver meus problemas de pagamento, ela sugeriu mandar um boy com os comprovantes à minha casa. “Mentes brilhantes!”, assenti. Já mais aliviada com a nossa troca de ideias geniais, meu celular tocou novamente.

“Filhinha, neste final de semana, não vai dar para cuidar dos seus cachorros como combinado… É que tive um probleminha…”

“Mãe, não posso falar agora, não é uma boa hora, nos falamos mais tarde por favor, ok?”

Então, minha mãe, com toda sensibilidade completa: “Qual foi a data do seu primeiro casamento mesmo?”

“Sei lá! Tinha 22 anos!”, respondo com meus olhos se arregalando.

“E do segundo?”, minha mãe completa com sua falta de adequação.

“Mãe! Não é um bom momento!”, respondo lamentando não sei se da situação ou das lembranças.

Desesperada, achando que o guincho pudesse chegar antes do que eu, começo a planejar minha recuperação lá mesmo na Santa Casa da Misericórdia…

“Olha moça, desculpe pelo trânsito, achava que a 23 estivesse livre a esta hora… liga lá no ponto de táxi e pede para os meus colega segurá o guincho pra senhora!”, sugeriu o taxista já meio constrangido pelo meu dia.

“Alô!”, respondem ao telefone.

“Boa tarde, quem está falando?”, perguntei disfarçando a ansiedade na voz.

“É o Antônio!”, responde alguém berrando na linha.

“Camarada bom!”, pensei depositando todas as minhas esperanças naquele senhor.

“Olha, senhor Antônio, estou ligando do carro do senhor Ernesto, seu colega…”, continuei

“Ele não tá aqui no ponto não!”, afirmou o seu Antônio.

“Eu sei… é que estou aqui no carro dele…”, expliquei.

“Num tô vendo o carro dele não!”, se antecipou o seu Antônio, meio surdo provavelmente pela idade, ponderei.

“Pois é! É que estamos a caminho do ponto e quero lhe dizer que tem um carro preto aí do lado, com o pisca alerta ligado…”, continuei positiva.

“Ah! Tem não!”, observou seu Antônio.

“Tem sim…”, repeti com quase nenhuma esperança na voz.

“Tem não!”, disse seu Antônio com a certeza que me fez tremer.

“Vai passar um guincho aí, para pegar este carro, mas a chave está aqui comigo e eu, talvez, não chegue antes dele”, continuei falando como uma louca que cria sua própria realidade (ou dissocia da realidade)!

“Tem não, que cor?”, questiona com a voz desconfiada, seu Antônio, curioso pela situação inusitada.

“Preto com o pisca ligado!”, argumento.

“Ah! Sim! Na frente do ponto, do lado de lá?”, declara narrando a maior descoberta do dia.

“Mas, o que a madame deseja?”, pergunta educadamente.

“Não deixa o guincho ir embora sem eu ter chegado, tudo bem? Por favor!”, suplico com um pouco de esperança!

“Conte comigo, minha madame!”, fala e concorda com total comprometimento.

Chegando ao ponto, um senhor de bigode, carregando um sorriso largo, vem ao lado da minha janela e diz: “Cabô de saí! Madame, ele não quis esperar, não!”

Já ostentando uma linguagem de taxista respondo: “Cê tá brincando comigo, colega?”

E num regozijo só, de quem adora a aflição dos outros: “Tô minha Madame!”, responde seu Antônio.

Descrente de que a coisa pudesse piorar, dentro do meu carro, esperando pelo guincho, vejo-o passar correndo rua abaixo.

De repente, todos os taxistas do ponto saem correndo e gritando para chamar sua atenção, enquanto eu, a minha madame, me debruçava, elegantemente, com o corpo pendurado para fora da janela do carro, indicando ser aquele o carro preto, da marca e modelos descritos!

O guincho da ré: “Xi! Madame!”, falou o cara do guincho. “Eles devem ter combinado por classe trabalhista”, pensei. E o motorista do guincho continuou:

“Como é que vamo tirá o carro daí se num ponhá marcha?”

“E eu que sei? Só esperando um dos carro saí, num é?”, respondi ao senhor.

Garota de sorte, acabo de responder em linguagem simpatizando com ambas as categorias de motoristas, o proprietário chega e tira o carro de trás!
Já com o carro em cima do guincho, pronta para descer e abandonar a carroça, toca meu celular:

“Querida, meu banco pela internet deu pau! Não consigo pagar suas contas!”, explicava minha amiga, quem me salvaria.

Com minhas entranhas estremecidas, a imagem da queda de braço entre meu fiel zelador e o cara da luz em minha cabeça e aquela notícia me deixaram em dúvida entre seguir em frente ou internar-me ali mesmo na Santa Casa de Misericórdia…

Fui descer e dei de cara com meus colegas anunciando ao motorista que ele havia me içado dentro do carro.

Desce guincho, desço eu, agora auxiliada pelos meus três colegas taxistas, que já não pegavam clientes a essa altura só para ficar ali e ver onde ia dar aquela história.

“Bom, só para continuar rindo, quem tem ar no carro?”, fui perguntando querendo me ver fora dali.

“Ninguém!”, escuto num coro animado.

Mais risadas. Com minha mão trêmula virei meu relógio.

“Então vou com o da frente!”, falei resignada com mais esta situação.

Chegando ao escritório da minha amiga, descubro que também o meu banco está com o sistema fora do ar, e já eram 16h30… Então, quase no fim da história, desta conspiração mundial para que não tivesse luz a partir daquele dia na minha casa, nem no final do túnel, sinto uma pontada e pronto! “Desceu para mim!”, anunciei.

Voltando do banheiro escuto finalmente a voz de mais uma boa alma, a estagiária, figura quietinha, que a tudo acompanhava no cantinho de sua mesa, na ultima sala do escritório. “Vamos tentar meu banco?”, perguntou calmamente, aquela figura nova e multifuncional, pondo um fim no meu desesperado dia! “A verdadeira heroína anônima!”, intitulei.

Já com os comprovantes em mãos, entro em mais um táxi.

Desta vez, não deixo que liguem o ar, já não queria mais me acostumar com as coisas boas da vida. Um dia poderiam ser cortadas!

Na portaria de casa, deixo os comprovantes com o zelador, subo para descansar. Estava feliz em saber que a batalha havia sido vencida, porém, não a guerra! – o que logo eu notaria.
Deito em minha cama e me esqueço de desligar o celular e, claro, que ele volta a tocar.

Era a educadíssima senhora do controle de satisfação do consumidor daquela maravilhosa marca de carros, que às 19 horas de uma quinta-feira qualquer de minha vida resolvia fazer a sua pesquisa. Logo após saber que eu não era a feliz proprietária, somente a usuária, muito mais educadamente rejeitou saber a minha opinião sobre o produto e de como estava sendo o pós-venda.

Mais uma respirada, lembro de alguns nomes feios em minha mente já corrompida, e quando insisto em dar a minha opinião sobre o produto ela muito subserviente me esclarece que este era outro departamento de pesquisa.

“OK”, acabou minha paciência de vez.

Levanto-me da cama, já nem o conforto dos meus lençóis desejava mais.

Queria cortar algumas cabeças! Queria cortar muito, com varias técnicas, com muitas facas, e outros instrumentos quaisquer que eu possuía. Corri para a cozinha, escolhi o jogo de facas de sushi, para fatiar qualquer coisa, antes que cortasse coisas boas com os problemas da minha própria vida.

Decidi cortar os brócolis, pelo homem da luz, levantando o legume de ponta cabeça com a minha mão esquerda e aplicando suaves golpes com a faca de porcelana, transformando aquela pequena árvore em forma de homem, e depois em muitas minúsculas e deliciosas arvorezinhas.
Decidi juntar as vagens como se fossem pequenas toras daquele legume e picá-las inúmeras vezes por todas as horas que escutei “colega”, durante meu dia.

Resolvi que a cebola seria ralada com a casca, pele e tudo, somente por todo o trabalho que havia tido com o carro.

Inovei na abobrinha e pela minha congestionada 23 de maio, primeiro tirei toda a casca com uma faca afiadíssima, depois com todo o prazer, cortei com a habilidade de um profissional a pobre em milhares de pequenos cubos.

O bacon, pensei em picar ainda mais depois de muito torrado, pensando em todas as vezes que os bancos me tinham prejudicado.

Ah, o alho! Excepcionalmente e cuidadosamente cortado em finas fatias, negando todas as minhas origens hispânicas na cozinha, foram retalhados em homenagem à “Minha madame”, a minha nova categoria.

E, finalmente, a cenoura, cuidadosamente escolhida, levei mais tempo para realizar que seria pelo meu querido marido! Picada inúmeras vezes, o tubérculo, de enorme ficava finalmente reduzido a um picadinho.

Quando dei por mim, havia cortado quilos de legumes, raízes, tubérculos, com todos os tipos de facas, nos mais variados tamanhos. O que fazer?

“Picadinhas Orientais!”, batizei minha criação.

Terminei minha terapia, fitando aquela montanha de legumes, liguei para meu marido, avisei que trouxesse vinho, pois havia feito um novo prato, uma comidinha muito especial, mas exagerado na quantia, picando tudo o que via, necessitando pelo menos seis pessoas para que dessem conta do recado.

Pouco mais que 12 horas de sofrimento foram necessárias para eu improvisar um famigerado picadinho, servir uma mesa farta, rodeada de meus queridos amigos que podiam saborear do resultado de minha fúria, tomar um delicioso vinho e rir de mais uma entre tantas de nossas histórias que adoramos compartilhar.

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