O homem minúsculo

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Colaboração: Maria Eugenia Kireeff, administradora e prosadora.

Aquele homem barbudo, sentado à frente da tevê, sorvendo uma dose de uísque entre um gole ou outro do seu copo de cerveja, de repente, ficava minúsculo.

Tornava-se pequeno em meio aos seus ensurdecedores gritos de desaforos para a pobre mulher que lhe servia o copo de cerveja e outro de uísque ininterruptamente.

Ela enchia cada copo, um após o outro, carregada de uma expressão de medo. Em sua face estampava o terror frente ao que ela imaginava ainda ser pior, a necessidade daquele homem transformar, a qualquer momento, a sua ira em abuso.

A cada copo que ele esvaziava, aparecia outra dose de uísque como magia. A cada copo de cerveja que ele bebia, intercalando com as doses de uísque, outro lhe era servido, gelado, perfeitamente cuidado por aquela mulher submissa e cheia de pavor.

Ao mesmo tempo, o que se enchia naquela noite era o repertório de desaforos, desafetos e agressões à pobre mulher que, com medo, refém de seu costumeiro martírio, abastecia o homem barbudo, na esperança de que ele ali caísse bêbado, entorpecido, à frente da tevê.

Muitas noites ele cochilava na poltrona e, de sobressalto, acordava, xingando a mulher culpada de seus pesadelos, xingando a tevê e o jornal que não prestavam, a vida que era injusta. Fazendo da gritaria uma sequência de reclamações ininteligíveis, com as sílabas emboladas, que deixava somente clara a pequenez daquele homem barbudo, sentado à frente da tevê, que via a sua vida passar e impotente nada fazia para que dela tivesse alguma razão para se orgulhar.

Cada noite que chegava em casa, a cerveja gelada nas mãos da pobre mulher não era da marca que ele gostava. Pelo menos, não era o que ele imaginava em seus pensamentos confusos, depois das primeiras doses no bar com seus amigos. Então, ele xingava a cerveja, a mulher, a tevê, o trabalho, a família, a filha e o filho. E a mulher servia a cerveja de marca ruim, o uísque que ele tanto queria e os copos esvaziavam-se, enchiam-se, multiplicavam-se e, de repente, caíam.

Ilustração de Chico Santos, especialmente para o texto de Maria Eugênia

Então, o homem barbudo ficava minúsculo em meio ao barulho que ele fazia com todos móveis quebrando. Com o estalar do abajur arremessado, dos gritos de pânico das crianças acordadas, com o som dos pneus cantando nas curvas, com o carro a toda velocidade guiado pelo homem barbudo que procurava pela cidade a pobre mulher que para a rua fugia, carregando seus filhos, nas matas e datas se escondia, até que ele, derrotado, desmaiava no carro, na rua, na esquina, para voltar para casa depois de dias.

A pobre mulher caminhava de volta para casa, cansada, com os filhos nos braços, devolvia-os à cama e, sem nenhuma palavra, beijava-lhes os olhos e, com suas lágrimas, dizia boa noite, os entregava de volta ao escuro e ao pesadelo de esperar por mais um dia.

Aquele homem barbudo, de repente, ficou para sempre minúsculo, no dia em que a pobre mulher adoeceu e à noite não levantou. Não trouxe a cerveja ruim, não serviu mais uma dose de uísque, não fugiu com os filhos, pois eles haviam há muito partido, não chorou dizendo boa noite e nem com suas lágrimas pode se entregar ao escuro e ao pesadelo de acordar por mais um dia, encontrando a paz.

O mesmo homem barbudo sentou-se pequeno à frente da tevê. Xingou o controle remoto, o jornal, a casa que ficara grande, o telefone que nunca tocava, os filhos que não via, os netos que não conhecia. Naquela noite não bebeu, pois não sabia onde a cerveja ficava.

Na noite seguinte, o homem barbudo entrou pela porta carregando seu litro de uísque numa mão e na outra umas latinhas geladas.

Mas, não gritou. Sentiu-se minúsculo em meio ao silêncio e ao vazio que a pobre mulher, conivente, deixara ao servir-lhe por anos um copo cheio de cerveja, e mais umas dozes de uísque, porque teve medo, não fugiu, obedeceu, subserviente, cumpriu seu papel da esposa, da mulher e da mãe nos anos em que viveu.

O homem barbudo, irremediavelmente, permaneceu minúsculo, embriagado, doente, sem sonhos, em silêncio, sozinho, à frente da tevê, com raiva daquela pobre mulher, dos seus filhos, dos netos que não conheceu, do telefone que não tocaria, das notícias que mostravam que a vida seguia, do controle remoto que o mantivera inerte, da vida que não viveu, do amor que não sentiu e da compaixão que não recebeu.

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