História do Colégio Mãe de Deus se confunde com a própria história de Londrina

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Ao lado da Inglaterra, a Alemanha. Um cenário improvável no mundo do início dos anos 1930, em que o regime nazista começava a ascender entre os alemães, muito embora os ingleses e os franceses buscavam uma política de apaziguamento com o governo de Hitler, inclusive com a realização de jogos de futebol, entre eles um em 1938 no Estádio Olímpico de Berlim. Não adiantou muito. Pouco tempo depois o continente europeu estava às voltas com a Segunda Guerra Mundial.

Do outro lado do oceano, no Novo Mundo, a coisa andava um pouco diferente. Os ingleses que lotearam o Norte do Paraná e se incumbiram de povoar a região recorreram à educação alemã do então iniciante movimento de Schoenstatt. Da Alemanha, vieram 12 freiras, que iniciaram aqui em Londrina uma história agora relatada no livro Coração de Mãe, sob a ótica do jornalista e escritor Paulo Briguet, lançado recentemente.

As 12 irmãs pioneiras, que vieram a convite dos ingleses e fundaram o Colégio Mãe de Deus (Fotos: Arquivo/CMD)

“O colégio Mãe de Deus foi a primeira escola de Schoenstatt fora da Alemanha no mundo. Hoje tem inúmeras, mas trouxe a pedagogia da liberdade, da autoeducação. Trouxe a educação, a cultura e a espiritualidade”, conta Paulo Briguet, que recebeu o convite de escrever e narra essa história em 2014, quando ainda trabalhava na Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil). “O início era ali na Acil, onde tinham duas casinhas de madeira que os ingleses cederam para as irmãs. Foram eles que as chamaram”, relata Briguet.

A missão de Briguet era contar o relato dos 80 anos do colégio. Foram ouvidas cerca de 40 pessoas entre professores, freiras, alunos e ex-alunos, entre outros religiosos. O jornalista mergulhou em documentos históricos, cartas, diários. Algumas delas foram as cartas encontradas há alguns anos com o carimbo nazista, que, enviadas de Londrina para a Alemanha, jamais chegaram o destino final. Sobre elas fiz uma reportagem quando elas foram achadas, no saudoso Jornal de Londrina (JL).

O colégio foi fundado em 3 de março de 1936. Uma das alunas da primeira turma, que já foi entrevistada na RPC Londrina quando eu era produtor, também está nas páginas do livro. As 12 irmãs pioneiras, claro, já faleceram, mas deixaram um legado: um diário que, desde 1935 (portanto, antes da fundação da escola), relata o dia a dia do trabalho. “Sem o Mãe de Deus, Londrina fica incompleta.”

O registro de José Juliani mostra a construção do colégio

Mais que mergulhar na história do colégio, Briguet mergulhou na espiritualidade de Schoenstatt, da qual simpatizo também. No fim da etapa, o jornalista fez um retiro em Atibaia, sede do movimento no Brasil, onde terminou de escrever o livro. Nas cerca de 400 páginas e nos 33 capítulos, narrativas sobre o padre José Kentenich, fundador do movimento, sobre o próprio Schoenstatt, sobre Londrina. “Não é o livro de um colégio, é o livro de um santuário que tem um colégio.”

Construído em 1950, mas com a pedra fundamental lançada pelo próprio padre José Kentenich, o santuário é uma capelinha pela qual passam 200 mil pessoas anualmente. Visitado algumas vezes pelo fundador, que foi levado para campo de concentração pelo regime nazista e que foi exilado pela própria Igreja, em momentos diferentes. Está no livro também a saga musical do colégio, porque sempre foi importante para a pedagogia do movimento a educação, a cultura e a música.

Uma das visitas do padre José Kentenich ao Colégio Mãe de Deus em Londrina

Quando chegaram, as 12 irmãs vieram com um tijolo do santuário original, em Schoenstatt, uma cruz e um violino, simbolizando justamente a construção da educação, a cultura e a espiritualidade. Foi, sem dúvida, a primeira escola católica de Londrina e que existe até hoje, a que deu origem ao hoje Coral Santa Cecília, o mais antigo da cidade, do Paraná e, talvez, do Brasil, e que apresentou a primeira peça de teatro da cidade. É uma história que não pode ser ignorada e, mais que isso, deve ser preservada.

Capelinha do Santuário de Schoenstatt em Londrina (Foto: Divulgação)

Paulo Briguet se manteve fiel ao relato histórico, embora não seja historiados. Mas, permitiu-se imaginar e criar ficção de fatos que jamais poderiam ser relatados. Como, por exemplo, o diálogo entre soldados nazistas na ocasião da prisão do padre José Kentenich. Ou então o encontro do próprio Briguet com o fundador do movimento. “Eu não sou historiador, então o livro não tem a pretensão de ser um relato historiográfico. Eu me inspirei em fatos históricos e procurei ser fiel à verdade. Em alguns capítulos me permiti lançar recursos da imaginação sem comprometer o fato histórico.”

Os capítulos revelam histórias das pessoas. De curas e milagres. De muita fé. O discurso de Briguet no dia do lançamento está na internet, na coluna Avenida Paraná, na Folha de Londrina. O livro custa R$ 38 e pode ser comprado no próprio colégio, quando retornar do recesso das férias escolares. Somente depois é que será distribuído em livrarias católicas. Outros aspectos não abordados aqui, podem ser lidos na reportagem de Marian Trigueiros, também na Folha de Londrina.

Paulo Briguet, no lançamento do livro (Foto: Bruno Ferraro/CMD?Divulgação)

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