Cinco anos

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Colaboração: Maria Eugenia Kireeff, administradora e prosadora.

Ela desligou o telefone olhando para o nada. Precisou de alguns minutos para controlar sua respiração. O medo que sentiu era da alegria ao escutar aquela voz.

Cinco anos os separavam. Eles que foram quase felizes, compartilharam momentos em família. Muitas vezes viajaram, dançaram, conversaram sobre tudo, sempre cúmplices, um privilégio que poucos vivenciariam na vida.

Assim seguiram por anos. Desde a primeira vez em que disfarçaram o entusiasmo, quando seus olhos se cruzaram ao serem apresentados num final de semana qualquer. Logo nos primeiros dias, acompanhados pelos seus namorados, nos momentos de convívio na varanda, aplacados pelo calor do verão e entregues às noites regadas a vinho branco gelado e longas conversas, perdiam-se ao olhar para as mãos, um do outro, entrelaçadas com as mãos de seus companheiros, imaginando como seriam ao toque.

A cada novo gole das bebidas, imaginavam, em cada canto, o gosto de seus lábios e sentiam habilmente o hálito adocicado que seguia junto de cada palavra pronunciada.

Passava o tempo. A cada ano, a tensão entre eles aumentava. O tesão começava a ficar explícito, com o arrepiar dos pelos dos braços, com seus pés acidentalmente tocando-se embaixo da mesa do jantar. O coração dos dois, que já não se consideravam tão felizes, disparava com uma esbarrada de ombros no mar, com os olhares cruzados na sala de TV ou com as trombadas no vôlei de praia. Uma onda incontrolável de calor invadia o lugar, quando suas palavras simultaneamente revelavam sua concordância e sintonia sobre quase todas as coisas da vida.

E, de repente, começaram a ter que discordar só para não aumentar a saudade e a vontade de partilhar cada final de semana, cada dia, cada momento de suas vidas.

A convivência gerava uma raiva intrínseca. Eles experimentavam uma mistura fina e complicada de sentimentos que provocavam suspiros de alegria por saber existir esse amor platônico e sons de sofrimento que ecoavam como ruídos, ou como palavras atravessadas trazendo constrangimento a todos no lugar.

Os mais preocupados em manter todo o grupo unido, faziam longos discursos sobre as qualidades de um e de outro, para aplacar a rispidez que surgia. E ao escutá-las, eles faziam de tudo para denunciar como fraudulentas todas as qualidades mencionadas, numa tentativa desesperada de deixarem de se amar, de se idolatrar.

No mesmo ritmo que aquele amor proibido invadia cada veia de seu organismo, ele ia minando a sua alegria. E, assim, ficou muito fácil para ela, julgar seu namorado por nada mais sentir ao seu lado. Sua tristeza o distanciava e a ela cabia culpá-lo por sua frieza, distanciamento e incapacidade de mudar a situação que se agravava a cada dia e não demorou mais para que ela desistisse e fosse embora.

Há cinco anos, em meio a um feriado, ela entrou no carro, dirigiu para longe. Foi chorando alto, cantando rock e decidida a nunca mais voltar.

Com essa trilha sonora, construiu outra vida. Rodeada de seus novos amigos, fez uma nova carreira. Fez uma casa, localizada no campo, onde sabia que poderia tirar proveito de uma solidão acolhedora e permitir-se ser feliz entre todas as coisas novas que ela aprendeu a valorizar. O excesso de tempo entre seus livros, a tinta no meio das unhas com seus tons preferidos, o nariz coçando do pó da varanda cheia de bichos e os olhos machucados com a luz do pôr do sol a cada entardecer, que ela não se cansava de retratar.

Nessa teia de relações sem compromissos, ela se esqueceu porque veio se esconder.

Foi sem medo que pegou o telefone naquele instante e, ao escutar o primeiro oi, sentou-se no chão da cozinha para não cair com a falta de firmeza das suas pernas.

Também faltava firmeza em sua voz, ao contrário da voz ao telefone, destemida, convencida em buscar o que lhe foi recusado pelas circunstâncias da vida, há anos atrás.

Foram poucos segundos ao telefone, o suficiente para saber que dali algumas horas estariam no bar da cidade, sentados à mesa, pois necessitavam descobrir tudo o que haviam renunciado.

Ela permaneceu por mais algumas horas naquele chão gelado, com seus bichos espalhados ao redor, fitando seus olhos sem se reconhecerem naquele olhar vários sentimentos, de quem não encontra resposta para suas suposições.

Com sua cabeça embaralhada por lembranças de tantas coisas que foram vividas e de fantasias naqueles anos de repressão, não se movia e o tempo passava.

Lembrava do cheiro e da cor da pele dele. Tinha a lembrança das vezes que imaginou a maciez de seus cabelos entre seus dedos. Lembrava dos seus olhos miúdos e de cantos caídos, de seu sorriso, de suas costas largas, cheias de pintas causadas pelo excesso de sol. De suas pernas longas cruzadas, sentado no sofá da varanda e do peito com a tatuagem já um pouco apagada, feita na adolescência. Das suas camisas largas, desbeiçadas e das calças sujas de barro com as marcas das patas de seus animais. Da inadequação daquele homem simples na cidade grande. Da sua respiração pausada, das suas reflexões e do gole de vinho tinto à meia luz nas noites entre tantas pessoas.

Quantas vezes se imaginara sozinha com ele, entre os lençóis deixando-se amar na cama, entorpecida pelo cheiro do seu suor e pelo prazer. Ou imaginara sua cabeça repousada em seu colo deitados na grama a olhar para o céu e observar as estrelas. Por muitas vezes, não ousou ficar a sós com ele, tomada pelo medo de revelar-se completamente.

Eram tantas lembranças, de coisas vividas ou que simplesmente imaginou ao lado dele, que agora se misturavam e ela não sabia mais separar entre as que eram ou não reais.

Era tanto medo que, simplesmente, estas recordações lhe causavam aflição.

E agora ela iria encarar a verdade. Resolveu não se arrumar. Tinha que ser sem maquiagem, sem cabelo enrolado, no máximo, os dentes escovados.

Tinha que ser com seus jeans surrados. Sua botina de barro.

Não iria trocar o sutiã, nem mesmo o modelo de calcinha.

Iria como quisera o acaso a encontrasse. Pois, assim, que ela estava levando a vida. De maneira simples, sem pretensões, um dia após o outro, sem atender aos antigos padrões.

Ela vivia livre, compromissada com o agora. Não fazia planos, fazia malas.

Não tinha posses, tinha segurança.

Não optara pela solidão, mas desde muito tempo pela solitude.

E regava a sua vida com o resultado de escolhas mais simples.

Já não era sofisticada. Aprendera a cozinhar. Fazia pasta, pão, brigadeiro e salada.

Preferia fotografar a comprar.

Já não corria de carro e nesse ritmo calmo foi dirigindo até o bar.

E, de repente, era como se ela nunca tivesse partido.

A estranheza que causou o seu novo visual, ao mesmo tempo os aproximou, como se estivessem num lugar mais confortável. Como se a simplicidade de um estivesse refletida no outro.

As suas mãos pela primeira vez se entrelaçaram. E não se soltaram mais. Eram macias, combinavam em tamanho e no toque.

Seus olhos, mergulharam na alma um do outro. Por algum tempo só trocaram olhares. Corriam gotas de suor na testa dos dois e entre os seios dela. E os corpos dos dois ardiam.

Eles não encontravam palavras.

Não havia nada para falar.

Estavam sentados, pediram cocas zero, limão e gelo, que derretiam no copo enquanto sorriam quietos, com seus rostos vermelhos em fogo, absortos na oportunidade que se deram, duas pessoas corajosas que finalmente se encontravam. Sozinhos, longe de todos do passado, livres. Só que paralisados.

Começaram a se beijar e procuraram na boca um do outro as palavras que lhes faltavam. Faltava também um quarto. Suas bocas, línguas, mãos, corpos exprimidos um contra o outro não deveriam ser assunto a mais ninguém.

E a paixão incandescente ficava grande demais. Era uma paixão louca que se alimentava de cada nova descoberta nos beijos, nas mãos percorrendo cada centímetro das costas, das bundas, das coxas e dos olhares trocados a cada pausa para respirar.

Abandonaram as cocas, seguiram em direção aos carros. Então ficaram ali parados mais do que o normal, lado a lado, pois tinham medo do que seria o primeiro momento de separação.

Para onde ir? Qual carro pegar? Quem iria guiar?, indagavam.

Por que razão mesmo ela não tinha trocado a calcinha???, se afligia.

Porque era para ser de verdade. E a verdadeira dúvida os fez parar para conversar pela primeira vez. E o som das vozes dos dois, saiu abafado, apressado querendo logo se calar, disfarçando seus medos.

Foram ao motel, no carro dele. Mas na verdade, o que não sabiam era o que fariam de suas vidas ao saírem de lá.

E o sexo foi calado. E foi bom. E em meio de todo prazer, seus sonhos todos foram confirmados. Eles eram feitos da mesma química. Sem nunca terem chance para conversar intimamente, adivinhavam o que para cada um podia dar mais prazer.

Deixaram-se experimentar sem culpa, nem pressa, nem hesitação.

Quando finalmente a noite caiu, seguiram para a casa dela. Durante toda noite, na escuridão ela permaneceu com a cabeça em seu colo, observando as estrelas. E no escuro da noite puderam esconder suas perguntas, seus sentimentos, medos e adormeceram.

A verdade apareceu logo pela manhã, quando pode vê-lo repousar a caneca de café preto no balcão da cozinha, para atender ao seu celular. Era o seu irmão, desejando saber para onde ele sumira.

Naquele momento, fez sentido para ela não trocar a calcinha, não arrumar o cabelo, não usar o vestido mais feminino, mesmo que não tenha dado certo e não o tenha afastado. Fez sentido quando ela olhou ao redor e reconheceu aquela casa, longe de todos, sua nova vida com novos amigos e um novo trabalho.

Mas, o telefonema, que ele atendia ao longe, trouxe de volta sua aflição. Agora, a verdade é que ela lembrava que ele tinha um irmão, o seu ex-namorado. E esse seria sempre um obstáculo.

Eles nunca teriam um futuro. Pensar em manter qualquer segredo era algo que a intimidava. Fazia com que ela não se sentisse à vontade em sua própria casa. O segredo que ela vivenciava, naquele instante, fez ela olhar com desgosto para ele. Quem passasse por aquela casa, sentiria constrangimento pela animosidade que pairava no ar.

Sem trocar nenhuma palavra, de repente, ela sentiu desprezo por ele e falta de respeito pelas suas escolhas que nunca mudariam o que eles viveram tempos atrás. Assim, tudo que viu nele foram as mesmas qualidades fraudulentas, que lhe causavam repulsa e não lhe atraiam mais. Mesmo que não houvesse troca de ofensas, os braços cruzados dela, o arrepio em seu corpo, a pressa com que ela tomava seu café sem sentar, andando de um lugar para outro, faziam com que ele não conseguisse respirar.

E as paredes daquela casa pareciam pequenas, e as janelas pequenas, e os espaços insuficientes para duas pessoas.

Mesmo sem que ele quisesse admitir, ficava claro que não encontrava saída.

A porta, embora fosse o pior caminho, mostrava que ficar já não fazia sentido.

E sem nenhuma palavra, com a cabeça baixa, ele saiu correndo, entrou no carro, dirigiu para longe, chorando alto, cantando rock para nunca mais voltar.

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