Às futilidades do Carnaval, sobrevivi

0

O Carnaval vai terminando e consegui, por mais um ano consecutivo, ficar imune a tudo que representa essa festa. Admiro quem goste e tenho até certa inveja. Mas, não tenho paciência para certas coisas disfarçadas de cultura ou diversidade. Não sei que tiro foi esse e, para mim, Toddynho é apenas uma bebida achocolatada de infância. E que continue sendo assim.

O problema não são as manifestações artísticas e culturais. Ao contrário, essas são louváveis. E lindas. Os desfiles das escolas de samba, por exemplo, a despeito dos sempre menores tapa-sexos, vêm carregados de enredos e adornos profundos e históricos. E revela, historicamente, uma festa que se transformou dos bailes frequentados pela elite para os desfiles de carros alegóricos cuja elite era expectadora.

Como diz a pesquisadora Maria Isaura Pereira de Queiroz, no livro Carnaval brasileiro – o vivido e o mito (Ed. Brasiliense, 237 págs), “[o Carnaval] hoje interessa a porções muito mais amplas da população urbana do que antigamente, fazendo a alegria de milhares de participantes e espectadores. Uma velha forma de Carnaval se perdeu no tempo, uma outra tomou-lhe o lugar”.

De fato, o Carnaval era uma festa religiosa: o Entrudo, trazido pelos portugueses, em que se faziam festas nos três dias que antecediam a Quaresma, porque os cristãos ficariam ao menos 40 dias em penitências e jejuns. Entretanto, a festa carnavalesca deixou há muito de ser religiosa. E se configura como uma festa genuinamente brasileira no formato atual. E vai além. Porque hoje há outras formas de brincar o Carnaval.

O frevo pernambucano completa em 2018 111 anos de história (Foto: Sergio Bernardo/PCR/Divulgação)

Os blocos de rua têm ganhado força nos últimos anos e se revelam formas cada vez mais democráticas de se divertir. Sem contar no já tradicional axé baiano ou no frevo pernambucano, duas das principais manifestações culturais ocorridas no Brasil.

É preciso valorizar e preservar todas essas formas carnavalescas. Ao contrário, os hits do ano e que caem nas graças dos foliões, vêm cada vez mais fúteis e substancialmente distantes dos sambas enredo criados pelos sambistas mais clássicos do ritmo brasileiro. Já há alguns anos não acompanho, mas me recordo de um tal de rebolation.

Que as futilidades se extinguam. Mas, que a verdadeira manifestação cultural carnavalesca, que constitui essência da identidade brasileira, seja mantida, preservada, brincada e transmitida entre as gerações. Seja com recursos privados, seja com incentivos públicos. Todos, enfim, devem valorizar o que é realmente bom.

Deixe uma resposta